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Investigação alemã no Brasil

Investigadores do Escritório Central de Investigação de Crimes do Nazismo da Alemanha visitam mais uma vez o Brasil para procurar antigos colaboradores e funcionários do Terceiro Reich envolvidos em crimes de guerra. Mas o que exatamente os resultados dessa investigação – ainda a serem confirmados – podem nos dizer?

Bruno Leal, Rio de Janeiro – No dia oito de março de 2016, o site alemão Deutsche Welle (DW) noticiou a 14a visita que peritos do Escritório Central de Investigação de Crimes do Nazismo da Alemanha faziam a arquivos históricos no Rio de Janeiro. Segundo a DW, a pesquisa identificara em apenas uma semana de pesquisa no Arquivo Nacional, cerca de 400 nomes de supostos criminosos nazistas chegados ao Brasil entre 1945 e 1955. O número, segundo a reportagem, será em breve submetido à checagem na Alemanha.

O Escritório Central de Investigação de Crimes do Nazismo da Alemanha funciona desde 1958, na cidade de Ludwigsburg, no estado de Baden-Württemberg. Seus funcionários vem trabalhando desde então para localizar e identificar ex-funcionários e colaboradores do Terceiro Reich. Se ainda vivas, essas pessoas podem ser levadas à justiça. Se mortas, seus paradeiros podem ao menos contribuir para mapear suas trajetórias após a guerra.

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O perito Uwe Steinz, encarregado da investigação brasileira: “onde houver crime, haverá punição”. Fonte: Deutsche Welle

Em 2013, tive a oportunidade de conhecer pessoalmente dois pesquisadores do escritório alemão: Kurt Schrimm, promotor público na Alemanha e desde o ano 2000 chefe do escritório, e Uwe Steinz, comissário de polícia, encarregado das investigações no Brasil. O primeiro encontro ocorreu no Consulado da Alemanha, em Laranjeiras, Zona Sul do Rio de Janeiro; o segundo, no hotel em que ambos se hospedavam, no bairro de Copacabana. Participaram também desses encontros os historiadores Luis Edmundo de Souza Moraes e Fabio Koifman, professores da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Koifman, inclusive, foi quem gentilmente me convidou para participar das reuniões.

A conversa foi interessante. Schrimm e Steinz estavam ainda no início da pesquisa. A maior dificuldade dos dois investigadores naquele momento era definir uma metodologia que fosse capaz de lidar de forma realista com uma verdadeira avalanche de documentos. Os dois já tinham pesquisado em outros países latino-americanos, como o Uruguai e a Argentina. O Brasil, no entanto, por suas dimensões continentais, representava um desafio maior. Apenas no Arquivo Nacional e no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiros os dois pesquisadores tinham milhões de documentos para ver. Na ocasião,  ajudamos da maneira como foi possível: indicando arquivos, apontando documentos e discutindo algumas particularidades sobre imigração e política brasileira.

Três anos depois destes encontros, Schrimm e Steinz parecem ter encontrado resultados expressivos. Neste sentido, podemos nos fazer a pergunta: caso os nomes encontrados no Brasil sejam confirmados, poderemos dizer que as autoridades governamentais brasileiras realmente ajudaram criminosos nazistas no pós-guerra, como muito se difundiu no pós-guerra? A resposta é: não necessariamente. Mesmo confirmando os nomes, a pesquisa comandada por Schrimm e Steinz não é capaz de, sozinha, responder esse tipo de questionamento. Para compreendermos satisfatoriamente a relação do Brasil com esses criminosos nazistas, será necessário analisar detalhadamente cada caso confirmado. O trabalho dos historiadores aí consistirá, por exemplo, em determinar a circunstância da vinda desses criminosos para o Brasil. Como chegaram ao país? Na época em que imigraram, constavam em listas de criminosos procurados ou suas responsabilidades só foram conhecidas posteriormente? As autoridades brasileiras conheciam suas atividades criminosas pretéritas? Uma vez no Brasil, contaram com auxílio do governo?

Muito do que sabemos sobre criminosos nazistas no Brasil ainda advém da imprensa, da literatura, de agências de informação, do cinema e/ou de arquivos policiais, ou seja, de trabalhos sem rigor acadêmico, baseados quase sempre em escassa base documental e não contextualizados. Não raro, muitos desses trabalhos ajudaram a construir uma mitologia política repleta de exageros que mais tem prejudicado do que colaborado para o nosso conhecimento sobre o tema. E como só recentemente os historiadores passaram a se interessar pelo destino dos criminosos nazistas no guerra, nunca é demais estar atento para os cuidados que este tipo de tema requer.

Para saber mais sobre o Escritório Central de Investigação de Crimes do Nazismo, clique aqui.

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