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A “caça” aos nazistas

Adolf Eichmann, Franz Stangl, Klaus Barbie e até mesmo Adolf Hitler. A busca por criminosos nazistas no pós-guerra despertou a atenção de historiadores e não-historiadores, combinou casos reais com imaginados.

Marcos Meinerz

Mais de setenta anos se passaram desde que a Segunda Guerra Mundial conheceu o seu final, em 1945, mediante a derrota das “Potências do Eixo”. Desde então, foram produzidos inúmeros trabalhos sobre o nazismo, tamanha a importância de explicar um dos acontecimentos mais marcantes do século XX. No cerne destes trabalhos, há vários estudos que abordam as mais diferentes temáticas sobre o assunto, ora privilegiando aspectos econômicos, ora políticos, ora sociais. Além de despertar o interesse de historiadores e detetives, o nazismo provoca também a curiosidade de um grande número de pessoas que tentam simplesmente entender quais as origens de um fenômeno político que produziu tantas consequências devastadoras para a humanidade.

Entre os vários gêneros surgidos neste período, vamos encontrar, por exemplo, um tipo de produção literária e jornalística dedicada a denunciar a existência de uma suposta conspiração para a formação do IV Reich na América Latina, onde o próprio Hitler estaria vivo para, junto de seus discípulos Martin Bormann e Josef Mengele, liderar novamente a “raça ariana”. Jornalistas e escritores suspeitavam de que tais personagens estariam se reorganizando politicamente no continente. Suspeita que cresceu depois que, em 1960, o sequestro de Adolf Eichmann – um dos responsáveis pela “solução final” -, num subúrbio de Buenos Aires, trouxe à tona a história dos criminosos nazistas fugitivos.

Simon Wiesenthal

O polonês Simon Wiesenthal, pioneiro na “caça” aos nazistas. Foto: 1973, Arquivo AP / Haaretz

Na década de 1970, foram publicadas diversas obras desse tipo. Em 1974, por exemplo, o jornalista húngaro Ladislas Farago, publicou, nos Estados Unidos, o livro Aftermath. Martin Bormann and the Fourth Reich. Nele, é narrada a caça a Martin Bormann, um dos homens de confiança de Hitler no final da guerra, efetuada pelo próprio autor, na América do Sul. Bormann, vale dizer, nunca conseguiu sair da Alemanha. Investigações posteriores confirmaram que ele morrera ainda em 1945, nos momentos finais da Segunda Guerra Mundial. Já em 1977, Erich Erdstein e Bárbara Bean publicaram o livro Renascimento da Suástica no Brasil, no qual é narrada outra caçada, desta vez ao “médico-monstro” de Auschwitz, Josef Mengele, efetuada também pelo próprio autor, um colaborador de Departamento de Ordem Política e Social da cidade de Curitiba. Mengele, de fato, esteve no Brasil, mas sua relação com qualquer projeto de renascimento do nazismo na América Latina jamais foi provada.

Tal imaginário continua ainda hoje atiçando a imaginação de romancistas e investigadores particulares em busca de uma boa história. Em The Grey Wolf – The Escape of Adolf Hitler, por exemplo, lançado em 2011, no Reino Unido, os britânicos Gerrard Williams e Simon Dunstan sustentam que Hitler escapou de seu bunker em Berlim três dias antes da conhecida data de seu suicídio. Ele teria se instalado em mais de uma residência na Patagônia, Argentina, com sua esposa Eva Braun e duas filhas.

Nem tudo, porém, é fruto da imaginação fértil de jornalistas e escritores. Logo após o término do conflito, nazistas, criminosos de guerra e colaboracionistas, de fato, fugiram para várias regiões do mundo com o intuito de escapar de futuras punições. A América Latina figurou como destino para parte desses indivíduos, sobretudo países como a Argentina, Brasil, Paraguai e Bolívia. Dentre aqueles que encontraram seu novo lar por essas terras, podemos destacar, além de Eichmann, Josef Mengele, Klaus Barbie, Herberts Cukurs, Franz Stangl, Ludolf Hermann Alvensleben, Gerhard Bohne, Kurt Christmann, Hans Fischbock, Hans Friedrich Heffelmann, Bernhard Heilig, José Janco, Ekart Krahmer, Walter Kutschmann, Fritz Lantschner, Erich Muller, Erich Priebke, Friedrich Rauch, Walter Rauff, Josef Schwammberger, Francisco Votterl e Guido Zimmer, entre outros. Estima-se que esta lista ultrapasse os 180 nomes. Muitos dos que desembarcaram no continente foram procurados e caçados, especialmente aqueles com um maior renome, tais como Eichmann, Mengele e Barbie.

Esses casos despertaram o interesse dos chamados “caçadores de nazistas”, termo bastante difundido pela mídia para designar aqueles indivíduos que dedicaram parte de suas vidas para localizar e levar a justiça criminosos nazistas. Um dos mais famosos foi o judeu polonês Simon Wiesenthal, que sobreviveu a diversos campos de concentração nazistas. Segundo seus próprios cálculos, ele teria sido responsável, direta ou indiretamente, pela prisão de mais de mil criminosos nazistas no pós-guerra, dentre eles, Adolf Eichmann. Wiesenthal faleceu aos 96 anos, em 20 de setembro de 2005 em Viena, na Áustria.

Os historiadores estão demonstrando cada vez mais pelo tema. Recentemente, a historiografia fez avanços significativos com obras como Os últimos nazistas (2012), de Mark Felton; Hunting Evil (2010), de Guy Walters; Nazis on the Run (2011), de Gerald Steinacher e Nazis and Good Neighbors (2003), de Max Paul Friedman. Outro marco importante no campo historiográfico é a Comissão para o Esclarecimento das Atividades do Nazismo na Argentina (1997), a CEANA, que analisou a presença dos criminosos nazistas na Argentina de uma maneira mais aprofundada, proporcionando avanços importantes. Embora não exista ainda uma historiografia extensa, tais trabalhos tem ajudado a conhecer melhor o assunto.

Seja como for, a fuga e a busca aos criminosos nazistas suscitam interesse e discussão tanto de historiadores quanto de não-historiadores. Até hoje, por exemplo, o governo alemão mantêm pesquisadores que investigam o destino de milhares de nazistas, que inclusive já passaram quatorze vezes pelo Brasil, encontrando no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, mais de 400 nomes suspeitos de serem criminosos de guerra. É um “passado que não passa”. Afinal de contas, alguns nazistas ainda estão por ai, sobrevivendo, mais de setenta anos depois do “Reich de mil anos” ter chegado ao fim em 1945.

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