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Um engenheiro nazista na Argentina de Perón

Conheça a trajetória do alemão Kurt Waldemar Tank, um criativo engenheiro de aviões do Terceiro Reich que ao fim da guerra imigrou para a Argentina e contribuiu com a Força Aérea do então presidente Juan Domingo Perón

Fernando Loureiro

Kurt Waldemar Tank nasceu em 1898 na cidade de Bromberg, no leste do Império Alemão, cidade que em 1919 seria transferida para a recém-criada Polônia, com o nome de Bydgoszcz. Quando a Primeira Guerra Mundial eclodiu, em agosto de 1914, o jovem Tank já se interessava por mecânica, aviação e pensava em se tornar aviador. Seu pai, no entanto, obrigou o filho a se alistar na cavalaria. Ironicamente, o jovem que sonhava com as mais modernas máquinas do século XX acabaria por combater à cavalo, na mais tradicional e aristocrática arma de um exército europeu. Quatro anos depois, aos 20 anos de idade, Tank já era um jovem veterano de guerra condecorado quando iniciou seus estudos de engenharia na Universidade Técnica de Berlim.

Em 1923, depois de receber seu diploma, Tank começou a trabalhar, por indicação de um professor, na Rohrbach Metallflugzeug GmbH, uma pequena fábrica de hidroaviões. Posteriormente, trabalhou na prestigiosa Albatros, que faliu em 1931 e foi absorvida pela Focke-Wulf. Seu primeiro projeto foi o Fw 44, um biplano monomotor projetado como aeronave civil e de treinamento. Ainda nos anos 1930, a aeronave, adaptada para uso militar, seria montada, com apoio técnico alemão, na Argentina e no Brasil.

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Tank na capa da revista alemã “Der Adler”. Fonte: internet.

Depois do Fw 44, Tank projetou um quadrimotor de alta altitude, o Fw 200 Condor, aeronave comercial para operar em linhas transatlânticas, ligando Berlim à Nova York. Durante a Segunda Guerra Mundial, o Fw 200 seria usado como uma aeronave de patrulha oceânica de longo alcance e para atacar navios mercantes aliados. No Brasil, o modelo foi operado pelo “Sindicato Condor”, uma subsidiária alemã da Lufthansa, antes da guerra.

Seria justamente um caça monomotor um dos mais importantes projetos de Tank. O Fw 190 foi o modelo de caça monoposto mais fabricado durante todo o conflito, com mais 20 mil unidades. O Fw 190, cujo protótipo voou pela primeira vez em 1939, foi um sucesso. Em baixa e média altitude se igualava ou superava os melhores caças aliados e podia ser usado também para ataque ao solo, sendo muito popular entre os pilotos da Luftwaffe.

O sucesso do Fw 190 rendeu a Tank a Cátedra de Engenharia Aeronáutica, na Universidade Técnica de Braunschweig, em 1943. Naquele mesmo ano, o Ministério do Ar do Reich, comandando pelo Marechal Herman Goering, decidiu que dali em diante todos os modelos de aviões da Focke Wulf receberiam o prefixo Ta, em homenagem a Tank. Além do caça, o agora proeminente engenheiro também trabalhou em projetos de bombardeiros de longo alcance com os quais a Luftwaffe pretendia bombardear os EUA. Foi o caso do Fock Wulf Ta 400, chamado de Amerika Bomber, um gigante de seis motores que, caso tivesse sido construído, bombardearia Nova York a partir de bases na França ocupada.

Quando ficou claro que a Alemanha estava a caminho da derrota, Hitler passou a cada vez mais fazer referências a armas milagrosas que mudariam os rumos da guerra em favor da Alemanha. Aeronaves de combate com motores à jato estavam entre as principais dessas armas. Assim, nos últimos anos da guerra, os projetistas alemães se dedicariam a projetos de aeronaves à jato. Tank trabalhou em vários conceitos e desenhos do gênero, mas foi Willy Messerschmitt, outro grande engenheiro alemão, que obteve sucesso com o Me 262, uma das primeiras aeronaves militares à jato a serem usadas em grande escala. Entre os projetos de Tank, o mais promissor era o Ta 183. No entanto, a guerra acabou antes mesmo de a aeronave ficar pronta. Esse, porém, não seria o fim da carreira de Kurt Tank, nem dos seus jatos. O Ta 183 se tornaria realidade muito longe da Europa, nos céus da República Argentina.

Um engenheiro nazista da Argentina do pós-guerra

A Argentina foi uma importante pioneira no projeto e na construção de aeronaves militares na América do Sul. Em 1927, o Presidente Marcelo T. Alvear fundou a Fabrica Nacional de Aviones, na cidade de Córdoba. Nos anos 1930, foram montados aviões de projeto alemão, como o já citado Fw 44, e em Córdoba foram projetados e construídos os dois primeiros aviões puramente argentinos, o Ae. C1 e o Ae. C2. Em 1933, a Fabrica Nacional de Aviones projetou e construiu um bimotor para transporte de passageiros. Ao final da Segunda Guerra Mundial a fábrica, rebatizada de Instituto Aeronáutico de Córdoba, já era a maior fabricante de aeronaves da América do Sul com cerca de seis mil funcionários.

Em 1946, os argentinos construíram o IAe 27 Pulqui I, o primeiro avião com propulsão à jato da América do Sul. O Pulqui I foi possível graças à colaboração do industrial e projetista aeronáutico francês Emil Dewoitine. Acusado de cooperar com as autoridades de Vichy e a ocupação nazista, Dewoitine fugiu da França ainda em 1944 e foi para a Espanha, onde projetou aviões para a aviação do General Francisco Franco. Depois se dirigiu para a Argentina, onde chegou em 1946, ano da primeira vitória eleitoral do General Perón. Em 1948, Dewoitine foi condenado, in absentia, a uma pena de trabalhos forçados por um tribunal francês por colaborar com o regime de Vichy. A condenação acabou prescrevendo e ele voltou, então, para a França, nos anos 1960. Morreu em 1977, em Toulouse.

Apesar de ser um feito impressionante, o Pulqui I, que voou pela primeira vez em 1947, era um avião com problemas de manobrabilidade e motor pouco potente. Após alguns voos de teste foi abandonado em 1950. Foi nessa época que Kurt Tank chegou à Argentina. Ao contrário de Emil Dewoitine e de Willy Messerschmitt, julgados e condenados por colaboração e crimes de guerra no final do conflito, não há evidências que Tank tenha sido acusado ou processado por crimes de guerra e emprego de mão de obra escrava na fabricação de aviões. Provavelmente isso tem relação com o fato de que, ao contrário de Dowoitine e Messerschmitt, donos das suas fábricas de aviões, Tank não era o dono da Focke Wulf, apesar de ser o seu mais importante projetista de aeronaves. De qualquer forma, a ida do engenheiro para a Argentina no imediato pós-guerra ilustra como o país sul-americano atraiu parte da qualificada mão-de-obra alemã que serviu ao regime nazista.

Tank chegou à Argentina em 1946, usando o nome de Pedro Matthies e levando com ele dezenas de técnicos da Focke Wulf. Na Argentina, à serviço do governo de Juan Domingo Perón, Tank construi o IA 33 Pulqui II, baseado no seu projeto Ta 183. O Pulqui II era um avião de caça de propulsão à jato com asas em flecha, um conceito novo, explorado pelos projetistas alemãs no final da Segunda Guerra Mundial. O Pulqui II voou pela primeira vez em 1950 e como era de se esperar para uma aeronave tão inovadora, encontrou problemas de estabilidade. O Pulqui II entrava em stall, isto é, perdia sustentação em baixa velocidade, com facilidade, o que gerou acidentes e até a morte de um piloto de testes. Apesar disso, em 8 de fevereiro de 1951 o Pulqui II foi apresentado oficialmente no Aeroporto Jorge Newberry, em Buenos Aires, num evento que contou com a presença do Presidente Perón, altos funcionários do governo argentino e representantes de governos estrangeiros. Era um dos mais importantes símbolos do progresso e desenvolvimentismo da Argentina Peronista.

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Desenho do Focke Wul Fw 190 A-8, projeto desenvolvido por Tank. Fonte: internet.

Os testes com a aeronave continuaram por 1952 e 1953, com Tank contornando os problemas descobertos nos voos de testes dos protótipos. Em 1953, a Fuerza Aerea Argentina já planejava encomendar 100 unidades do avião. Egito e a Holanda consideraram o Pulqui II para equipar suas forças aéreas. No entanto, o destino do Pulqui II e de Kurt Tank estava agora ligado ao do governo de Juan Domingo Perón. Desde 1951, Perón obrigara a Fabrica Militar de Aviones (FMA) a produzir carros e caminhões, fazendo com que orçamentos para a construção de aeronaves fosse desviado para outros fins. Pouco antes da queda de Perón, o governo praticamente encerrou os projetos aeronáuticos da FMA, que agora deveria fabricar carros, caminhões, motos e equipamentos agrícolas. Em 1955, o contrato de Tank com o governo argentino expirou e Perón não aceitou a proposta de renovação do engenheiro alemão, que teria exigido um valor quatro vezes maior do governo argentino para renovar seu contrato. A Fuerza Aerea Argentina também desistiu do Pulqui II, preferindo comprar aeronaves americanas, já prontas e disponíveis para operar.

Em 1955, Juan Domingo Perón foi derrubado por um movimento militar autodenominado “Revolução Libertadora”. Ironicamente, as forças anti-peronistas chegaram a empregar um dos protótipos do Pulqui II em operações contra as forças legalistas e o protótipo voou sobre Buenos Aires nas comemorações da vitória do levante contra o General Perón.

Tank e sua equipe deixaram a Argentina ainda antes do golpe e foram continuar suas carreiras em outras partes do globo. Tank se dirigiu para Índia, onde projetou, para a Hindustan Aircraft Limited, o HF-24 Marut, o primeiro jato de combate supersônico da Índia. A aeronave foi baseada num conceito que Tank começou a desenvolver ainda na Argentina com o nome de Pulqui III. Em 1967, o alemão deixou a Índia e retornou para a Alemanha Ocidental, estabelecendo-se em Berlim. No seu país natal, trabalhou como consultor para a Messerschmitt-Bölkow-Blohm (MBB). Morreu em Munique em 1983.

Hoje, um viajante que consiga se afastar dos muitos atrativos e encantos do centro de Buenos Aires, pode se dirigir ao Museo Nacional de Aeronautica na humilde Móron, à 34 km do centro da capital, e ver com seus próprios olhos um dos protótipos do Pulqui II de Kurt Tank. Uma lembrança dos projetos de grandeza do General Perón e dos tempos em que as revolucionárias e modernas aeronaves de um projetista alemão cruzavam os céus da República Argentina.

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