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Associated Press colaborou com o regime nazista, aponta estudo de historiadora alemã

Modelo submisso de jornalismo teria contribuído para divulgar valores da propaganda nacional-socialista e até mesmo escamoteado crimes de guerra

Por Bruno Leal

De acordo com a historiadora alemã Harriet Scharnberg, da Universidade Martin Luther, na cidade alemã de Halle, a agência de notícias norte-americana Associated Press, a AP, com sede em Nova Iorque, só continuou operando na Alemanha nazista porque aceitou assinar um acordo formal com aquele regime: a agência funcionaria no país desde que concordasse com uma dinâmica de trabalho que ia desde o fornecimento de fotografias a publicações nazistas até a divulgação de valores típicos do nazismo. As revelações de Scharnberg estão reunidas em um artigo publicado na Zeithistorische Forschungen (periódico online alemão dedicado a estudos de história contemporânea) e reverberaram imensamente na imprensa mundial graças a uma matéria publicada pelo jornal inglês The Guardian nesta quinta-feira.

Logo após a ascensão de Hitler ao poder, em janeiro de 1933, não apenas a imprensa alemã foi duramente censurada e reprimida pelo Estado, mas também a estrangeira. Grandes agências anglo-americanas como a Keystone e a Wide World Photos, por exemplo, se viram forçadas a fechar as portas na Alemanha após sofrerem represálias por empregarem jornalistas judeus. O The Guardian lembra, em sua matéria sobre a pesquisa de Scharnberg, que ele próprio foi proibido de circular no país. A AP, por outro lado, continuou operando no país até a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial em dezembro de 1941.

AP

Publicações antissemitas produzidas com material da AP. À esquerda, revista “O sub-humano”; à direita, “Bairros judeus na Europa”. Fonte: Zeithistorische Forschungen.

Scharnberg sustenta que isso só foi possível graças a um acordo mútuo feito com as autoridades nazistas. Tal acordo não foi ilegal, mas a atuação da empresa na Alemanha a partir dele teria comprometido o que se entende em termos de ética e liberdade no campo jornalístico. Os representantes da AP na Alemanha teriam se submetido à chamada “Lei dos Editores” (Schriftleitergesetz). A historiadora explica que mediante esse acordo, a AP, para continuar presente no país, se dispôs a contratar repórteres que trabalhavam para a divisão de propaganda do Partido Nazista. Um dos fotógrafos empregados pela agência na década de 1930, Franz Roth, era membro da divisão de propaganda de uma unidade da SS. Além disso, a agência teria permitido que o regime nazista usasse fotos de seu arquivo para ilustrar virulentas publicações antissemitas e consentido em não publicar qualquer material “com o fim de enfraquecer a força do Reich no exterior ou dentro de seus limites”.

Crimes nazistas encobertos

A historiadora alemã explica ainda que o material sobre a Alemanha produzido pela AP contribuiu para difundir a propaganda do regime nazista. Valores, imagens e sentidos cultivados pelo nacional-socialismo eram repassados não só para os leitores da AP, nos Estados Unidos, mas também para aqueles das incontáveis empresas jornalísticas ao redor do globo que, naquele momento, contavam quase que exclusivamente com o material da empresa, a única agência de notícias ocidental atuando na Alemanha nazista. Durante a guerra, esse modelo de jornalismo, teve desdobramentos ainda mais graves. Conforme sublinha Scharnberg, a cobertura jornalística da AP teria ajudado a escamotear crimes de guerra cometidos pelas tropas nazistas. É o caso, por exemplo, do genocídio na cidade de Lviv. Em junho de 1941, logo após a ruptura do Pacto Ribbentrop-Molotov, a Alemanha invadiu Lviv, Ucrânia, e se deparou com evidências de assassinatos em massa executados pelas tropas soviéticas. As forças de ocupação nazistas levaram à cabo, então, uma violenta retaliação, visando principalmente a comunidade judaica, na época acusada pela propaganda nazista de conspirar com os soviéticos contra a população local.

“Em vez de imprimir imagens dos dois longos dias de pogroms de Lviv, que fizeram milhares de vítimas judias, a imprensa americana só recebeu fotografias mostrando as vítimas da polícia soviética e dos ‘brutais’ criminosos de guerra do Exército Vermelho”, disse Scharnberg ao The Guardian. E completou: “Nessa medida, é justo dizer que essas imagens fizeram sua parte em dissimular a verdadeira natureza da guerra liderada pelos alemães. A escolha de quais eventos se tornaram visíveis e quais permaneceram invisíveis por meio do fornecimento de imagens da AP estava alinhada com os interesses alemães e com a narrativa alemã da guerra”.

Segundo o The Guardian, as revelações advindas do estudo da historiadora alemã acabaram levantando suspeitas sobre a atuação da agência norte-americana, hoje, em países controlados por regimes ditatoriais. “Desde 2012, quando a AP se tornou a primeira agência ocidental de notícias a abrir um escritório na Coréia do Norte, várias questões têm sido repetidamente levantadas sobre a neutralidade do material produzido por ela em Pyongyang.”

AP divulga nota pública sobre o artigo de Scharnberg

Após a enorme repercussão internacional provocada pela matéria do The Guardian, Paul Colford, Vice-Presidente e Diretor de Relações de Mídias da AP, publicou uma nota pública em inglês no site da agência. Colford explicou que em fevereiro de 2015, a historiadora alemã procurou a AP e que a agência lhe forneceu “uma grande quantidade de material de seus arquivos corporativos, além de depoimentos de história oral de funcionários da empresa da época da Segunda Guerra Mundial”. O resultado da pesquisa, porém, disse Colford, revelou fatos que eram desconhecidos do próprio staff atual da agência. Colford afirmou que a AP vai rever seus documentos e consultar outros arquivos, nos EUA e na Europa, para ter uma melhor compressão do período. Porém, disse desde já rejeitar a ideia de que a agência colaborou com o regime nazista. Pelo contrário, ele pontuou que a agência teria sido submetida à enorme pressão nazista, tendo resistido como pôde a fim de “reunir notícias precisas, vitais e objetivas ao mundo em um tempo obscuro e perigoso.” Colford menciona que na década de 1930, inclusive, a AP alertou o mundo sobre a ameaça nazista. O seu então chefe de reportagem em Berlim, Louis P. Locher, conforme lembrou, resistiu à pressão antissemita para demitir funcionários judeus da AP e foi premiado com o Pulitzer em 1939 por sua cobertura do regime nazista.

Para ler o texto de Scharnberg na íntegra – em alemão – clique aqui. Para ler a nota divulgada por Paul Colford, Vice-Presidente e Diretor de Relações de Mídias da AP – em inglês –, clique aqui. E se quiser ler o artigo do The Guardian, que fornece boa parte das informações disponíveis neste post, clique aqui.

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