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Desnazificação: um estudo pioneiro

Artigo do historiador norte-americano William E. Griffith, publicado em 1950, foi pioneiro no campo dos estudos sobre a desnazificação. Trabalho inaugurou uma série de ideias e interpretações sobre o processo executado pelos aliados na Alemanha ocupada no imediato pós-guerra.

Por Bruno Leal

Antes mesmo de encerrada a Segunda Guerra Mundial, as forças aliadas começaram a elaborar um ambicioso processo chamado desnazificação. Segundo o historiador Frederick Taylor, embora o nome tenha sido inicialmente cunhado para pensar especificamente a renovação do sistema legal alemão após o conflito, ele rapidamente se tornou um lugar-comum para se referir ao desmonte generalizado do aparelho estatal nazista. Foi empregado para fazer alusão tanto a prisões e punições de oficiais, como à eliminação sistemática de simpatizantes do nacional-socialismo da vida política, econômica e cultural alemã. No total, sua execução durou quatro anos (1945-1949) e se transformou em uma das principais medidas educativas empreendidas pelos aliados no país. Quase todo alemão em idade adulta naquele período foi submetido a longos questionários, além de interrogatórios e investigações.

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Suspeitos de crimes nazistas preenchem questionário de desnazificação em centro de detenção britânico. Fonte: internet.

Uma vez que a desnazificação foi uma das principais atividades dos aliados na Alemanha ocupada, não surpreende que o tema tenha sido profundamente examinado em incontáveis trabalhos acadêmicos. É interessante notar, porém, que esses estudos começaram durante o próprio período de desnazificação ou, pelo menos, imediatamente após a sua conclusão. Havia, portanto, uma enorme tentativa de sociólogos, juristas, cientistas políticos e, principalmente, historiadores, de compreender tal fenômeno no “calor da hora”, da mesma forma que ocorreria também com outros acontecimentos do imediato pós-guerra, como o Tribunal de Nuremberg. Dentre esses trabalhos pioneiros sobre a desnazificação, está o artigo Denazification in the United States Zone of Germany, de William E. Griffith.

O “fiasco” da desnazificação

O artigo apareceu em janeiro de 1950, na edição de número 267 da The Annals of the American Academy of Political and Social Science, um tradicional periódico norte-americano lançado em 1889 e que existe até hoje. É publicado pela Sage Publications em associação com a American Academy of Political and Social Science. A edição 267 era dedicada a um dossiê especial: Military Government. Griffith, o autor, nascido em Remsen, Nova York, em 1920, tivera uma trajetória acadêmica meteórica. Graduou-se em liberal arts em 1940, no Hamilton College, e obteve seu mestrado em história em 1941, por Harvard. No ano em que seu artigo foi publicado na The Annals, ele estava bem próximo de terminar seu doutorado em história, também em Harvard, com uma tese justamente sobre a desnazificação.

Griffith, no entanto, era um pesquisador mais do que privilegiado. Ele tinha servido como oficial do exército americano na França e na Alemanha durante o conflito mundial. Durante o imediato pós-guerra, continuou servindo na Europa. Na região da Bavária, atuou como secretário do Conselho de Desnazificação e, depois, como chefe do Escritório Especial do Conselho de Desnazificação. Tinha ele, portanto, se envolvido pessoalmente com o processo de expurgo nazista comandado por seu governo.

Diferente do que se poderia imaginar de um pesquisador profundamente entrelaçado com o seu objeto de estudo, Griffith tem uma visão bastante crítica da desnazificação. Ele começa o texto, por exemplo, apontando o caráter contingencial da tentativa do governo dos Estados Unidos em expurgar o nazismo da Alemanha: “Like the rest of military government, denazification planning suffered from Washington indecision, Morgenthau plan influence, and Roosevelt’s decision not to plan at all”. O autor aponta vários erros administrativos. Para ele, embora os oficiais americanos tivessem sido bem-sucedidos em restaurar os serviços de utilidade pública na Alemanha, o mesmo não se poderia dizer quanto à execução da política de desnazificação. Para ele, esses oficiais não conseguiam compreender que aquela política norte-americana era uma verdadeira “revolução”.

A avaliação de Griffith é tão realista quanto frustrante. Ele explica, por exemplo, que a despeito de todo o esforço de seu escritório em retirar os nazistas dos postos-chave de comando, muitos permaneceram nesses cargos. Griffith antecipa um tipo de interpretação que nas décadas seguintes seria consagrada pela historiografia: o processo de desnazificação, argumenta, foi incompleto e insuficiente porque teve pouco tempo, porque contou com pouco pessoal e porque mesmo aqueles que participaram do empreendimento não tinham a capacitação que a tarefa exigia. Griffith pontua que o expurgo era lento e que isso mobilizou diversos setores da sociedade alemã para exigir leis mais flexíveis:

Case processing was too slow. German sympathy was becoming solidified, behind the “poor, persecuted Nazis”, because the delays, the relatively harsh punishment of the small fry, and the failure to bring the big Nazis to trial. German agitation for substantial revisions in the Law grew more insistent. German authorities had never concealed their dislike for the Law; the churches had always opposed it; and the political parties were generally unfavorable, the Christian Democrats and the Liberal Democrats particularly so, while the Social Democrats and (at first) the Communists voiced some support.

Diante deste cenário, o General Lucius Dubignon Clay, que era então o homem à frente do Governo dos Estados Unidos na Alemanha, optou por soluções brandas, caso das anistias. ”Already in July 1946 the Youth Amnesty had freed some 900.000 incriminated persons born after January 1st, 1919, from almost all penalties”, observou Griffith, que também comenta em seu artigo a visita que membros do Congresso americano fizeram à Alemanha em 1947. Essa visita, aponta o autor, convenceu muitos congressistas de que a desnazificação estava sendo, ao contrário do que se desejava, um impedimento à recuperação da Alemanha, devendo ser concluída o mais rápido possível.

Ainda que reconheça que o governo americano devotou mais atenção à desnazificação (“talvez muito mais”) do que outras nações, este processo fora, na sua avaliação, um verdadeiro “fiasco”, fruto de um conjunto variado de motivos, internos e externos, tais como a tensão da Guerra Fria, a dificuldade de usar militares para fins políticos, paixões de guerra, entre outros não menos importantes.

Em 1950, ano da publicação de seu pioneiro artigo, Griffith concluiu sua tese de doutorado: The denazification program in the United States zone of Germany. Foi durante 31 anos professor do conceituado Massachusetts Institute of Technology (MIT), além de Ford International Professor of Political Science após sua aposentadoria, em 1990. Faleceu em 28 de setembro, aos 78 anos, no Hospital Geral de Boston.

Para ler seu artigo Denazification in the United States Zone of Germany, clique aqui. Você também pode conhecer um pouco mais sobre a edição 267 da revista The Annals of the American Academy of Political and Social Science clicando aqui. Por fim, para ler o obituário de Griffith, publicado no jornal americano The New York Times, clique aqui. No site JSTOR (banco de dados de artigos acadêmicos), você encontra outros autores que escreveram trabalhos igualmente pioneiros sobre a desnazificação, como o historiador Elmer Pliscke (1914-2015), professor da Universidade de Maryland de 1948 a 1980. Tal qual Griffith, Pliscke também serviu na Alemanha ocupada e teve um olhar privilegiado no cenário do pós-guerra.

Referências Bibliográficas

GRIFHT, William E. Denazification in the United States Zone of Germany.The Annals of the American Academy of Political and Social Science 267. [Sage Publications, Inc., American Academy of Political and Social Science]: 68–76. 1950, Disponível em: http://www.jstor.org/stable/1026728. Acesso: 9 Abr 2016.

TAYLOR, Frederick. Exorcising Hitler: the occupation and denazification of Germany. Bloomsbury Publishing, 2011.

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