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O lançamento do ano

A destruição dos judeus europeus, obra clássica do historiador Raul Hilberg, uma das maiores referências na historiografia do Holocausto, chega em grande estilo ao Brasil após 55 anos de seu lançamento original.

Por Bruno Leal

“A destruição alemã dos judeus europeus foi um tour de force”. É assim que inicia a leitura de A destruição dos judeus europeus, livro clássico do historiador Raul Hilberg (1926-2007) que acaba de chegar ao Brasil pela Editora Amarilys. A obra de Hilberg, na verdade, poderia ser considerada um tour de force em si mesma. E isso se deve menos às suas 1657 páginas divididas em dois tomos e mais à pungência do trabalho. A destruição dos judeus europeus é “fundadora” da historiografia do Holocausto, leitura básica para quem desejam compreender a perseguição e o extermínio dos judeus durante o período do Terceiro Reich. Nas palavras do historiador francês Michel Marrus, antes de Hilberg “não havia um corpus. Nenhum panorama do que aconteceu que englobasse toda a Europa. Foi isso o que Hilberg trouxe para o debate”.

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“A destruição dos judeus europeus”: dois volumes em um box. Editora Amarilys.

Hilberg nasceu em uma família judaica de Viena em 1926. Em abril de 1939, fugindo da perseguição nazistas, mudou-se para a França e depois para Cuba, até chegar aos Estados Unidos, estabelecendo-se em Nova York. Após os EUA entrarem na guerra, Hilberg acabou servindo no exército americano. Como o alemão era sua língua nativa, foi destacado para atuar no Departamento de Documentação de Guerra, encarregado, entre outras tarefas, de examinar a documentação nazista. Esta experiência foi considerada pelo próprio Hilberg como o primeiro estímulo para suas pesquisa sobre o extermínio dos judeus. Uma vez de volta a Nova York, Hilberg voltou seus estudos. Concluiu o doutorado na Universidade de Columbia entregando a tese A destruição dos judeus europeus, sob orientação do teórico Franz Neumann. Em 1955, tornou-se professor da Universidade de Vermont, onde passou o restante de sua vida acadêmica.

A destruição dos judeus europeus é uma verdadeira obra-prima. Através do uso de milhões de documentos primários, Hilberg explicou os antecedentes do extermínio, o apagamento da vida jurídica dos judeus, a expropriação de bens, as operações móveis de extermínio, o processo de deportação, os guetos e os campos de concentração e extermínio. Hilberg explorou até mesmo as consequências do genocídio no imediato pós-guerra. Sua maior contribuição foi mostrar que o Holocausto fora resultado de uma robusta máquina burocrática, envolvendo milhares de participantes e que não seria possível existir sem um plano pré-concebido de Hitler. Fez ele uma “história do tempo presente” quando ainda nem se sonhava em falar no tema.

Apesar das virtudes de sua pesquisa, Hilberg encontrou desde cedo dificuldades para publicar a tese. O historiador ofereceu o manuscrito a diversos editores. Perdeu as contas do número de negativas. A justificativa era quase sempre a mesma: o trabalho era extenso demais ou se baseava quase exclusivamente em documentação alemã. Ainda durante seu doutorado, o próprio orientador já o tinha desencorajado: é o seu funeral”. Para Neumann, nenhuma universidade ou editora de porte publicaria o manuscrito. Em primeiro lugar porque era extenso demais. Em segundo lugar porque Hilberg tocava em pontos ainda muitos sensíveis para muitos judeus, principalmente no que diz respeito aos Conselhos Judaicos, ou judenrat, nome dado às lideranças judaicas nos guetos da Europa Oriental encarregadas de cumprir as ordens nazistas. Em 1963, ao publicar “Eichmann em Jerusalém”, Hannah Arendt seria duramente atacada por condenar a atuação desses conselhos. Hilberg, no entanto, antecipou essas críticas em oito anos.

No fim das contas, entretanto, Hilberg acabou atraindo o interesse da Quadrangle Books, uma pequena editora de Chicago. Era 1961 e a primeira impressão foi de pequena tiragem. Era o começo de uma grande reviravolta. Naquele mesmo ano, teve início em Jerusalém o julgamento de Adolf Eichmann, considerado um dos principais nomes da “solução final” para a “questão judaica”, e a atenção do mundo se voltou pela primeira vez de forma sistemática para os crimes nazistas. O livro de Hilberg, então, começou a se tornar conhecido no meio acadêmico e também entre o público em geral – a própria Hannah Arendt, escrevendo para o grande público, o cita várias vezes.

A historiografia progrediu bastante nas décadas subsequentes à publicação de A destruição dos judeus europeus. Surgiram novas interpretações, problemas, fontes e dimensões da tragédia judaica. Hilberg, contudo, sempre se manteve como referência em praticamente todos esses novos trabalhos, mesmo naqueles que desafiavam suas explicações. O próprio Hilberg acompanhou essas mudanças, continuando suas pesquisa e lançando outros livros que também se tornaram célebres no meio acadêmico. Se o historiador demorou para ver sua tese de doutorado publicada pela primeira vez, teve tempo suficiente para testemunhar não só novas reimpressões e reedições, mas também sua tradução para diversos idiomas. Por motivos desconhecidos, o livro nunca tinha sido publicado em português. A espera, felizmente, terminou neste primeiro semestre de 2016, quando a Editora Amarilys trouxe o livro para o Brasil.

A espera valeu. A versão brasileira é uma brilhante peça de editoração. São dois volumes em capa dura, parte de um box de papelão, totalizando 1657 páginas. Ambos os volumes foram impressos em papel amarelo, antirreflexo, de ótima gramatura. Todas as notas estão lá. E o melhor: na própria página, na nota de rodapé. O leitor, desta forma, não precisa ir ao final do capítulo ou ao final da obra para ler as referências indicadas pelo autor. Isso torna a leitura muito mais prática e prazerosa. Chama a atenção, também, a diagramação do conteúdo, bastante sofisticada e lógica. As tabelas, por sua vez, ganharam um aspecto baste vistoso e organizado. A tradução ficou a cargo de Carolina Barcellos, Laura Folgueira, Luis Proásio, Maurício Tamboni e Sonia Augusto. A edição bem que poderia ter uma introdução sobre a obra, escrita, de preferência por um historiador brasileiro. De qualquer forma, isso é uma falta menor. A Editora Amarilys, como se pode perceber, cumpriu muito bem o desafio. Estamos certamente diante do lançamento mais importante no campo da história em 2016, provavelmente um dos mais importantes dos últimos anos. É algo para ser celebrado.

“Consequências”

Para os leitores do Crimes Nazistas deve ser particularmente interessante o penúltimo capítulo do livro, intitulado “Consequências”. Nele, Hilberg aborda o período do pós-guerra. São alguns dos temas que perpassam o capítulo: as respostas que a “comunidade judaica” deu aos perpetradores e seus crimes, a maneira como lidou com a memória do trauma, a atuação dos países europeus diante da tragédia e a forma como os alemães encararam o “peso” deste passado. Hilberg debruça-se ainda sobre os vários julgamentos ocorridos: desde o Tribunal de Nuremberg até os julgamentos nacionais, menores em escala, mas não menos importantes em significados, ocorridos tanto no Ocidente quanto no leste. Discute o processo de desnazificação, a ocupação aliada, as leis de restituição e as indenizações alemãs. Hilberg faz tudo isso com a mesma precisão que pode ser encontrada em todo o texto: sãos nomes e mais nomes, locais, cargos, tabelas e números, tudo referenciado em notas de rodapé, como manda o método histórico. Um livro, portanto, completo. Um livro para se ter nas escolas, nas universidades, nas livrarias, nas bibliotecas públicas e, claro, nas pessoais.

Para comprar A destruição dos judeus europeus, você pode acessar o site da Editora Manole (a Amarilys é um de seus selos) clicando aqui.

2 comentários em O lançamento do ano

  1. Antonio Ferreira // 18 de abril de 2016 às 20:05 // Responder

    Tinha lido a respeito do lançamento deste livro, o preço tá nas alturas, mas assim que tiver oportunidade vou comprar, os livros estão se esgotando muito rapidamente.

    Curtido por 1 pessoa

    • Salve, Antonio. Tudo bem? Obrigado pelo comentário! O valor é mesmo alto mesmo. Mas o “Crimes Nazistas” pode assegurar que vale a pena o investimento. São dois volumes em capa dura, totalizando mais de 1600 páginas. Trabalho conjunto de vários bons tradutores. Vale a pena juntar moedas no “cofrinho”. Fique de olho nas promoções. Volta e meia o preço cai. Um bom site para medir os preços é o Buscape.

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