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“Amnésia” – crítica

Ambientado no início dos anos 1990, novo longa do iraniano Barbet Schroeder explora a relação entre um jovem DJ e uma experiente música, ambos alemães, para abordar a questão do silenciamento sobre os crimes nazistas na Alemanha do pós-guerra

Por Ana Paula Tavares e Bruno Leal

Em novembro de 2016, o filme “Amnésia” chegou a diversas salas de cinema do Brasil. Dirigido pelo iraniano Barbet Schroeder (“Mulher solteira procura”, 1992), o longa franco-suíço conta a história do encontro, em 1990, na paradisíaca Ibiza, entre um jovem DJ alemão chamado Jo Gellert, o “DJ Gello” (Max Riemelt, o Wolfgang da série Sense8), e uma alemã de 70 anos, música, chamada Martha Sagell (Marthe Keller, de “Um momento, uma vida”). Ele acaba de chegar da Alemanha e sonha em tocar nas melhores casas noturnas da região, entre elas, a Amnesia; ela está na ilha há várias décadas e leva uma vida longe da agitação. Uma vez vizinhos, tornam-se amigos e da amizade nasce uma tensão sexual que perpassa todo o filme.

amnesia

Foto: Hollywood Reporter

Se a proposta parece “ousada” considerando ainda algum tabu em torno do relacionamento de homens jovens com mulheres mais velhas, os clichês dos filmes românticos aparecem reestabelecendo a dinâmica das fórmulas dos filmes “água com açúcar”. O momento em que o homem se encanta com a mulher meio atrapalhada e ela, por sua vez, se encanta com a possibilidade de “aprender com ele” estão lá na cena da pescaria, logo no início do filme, quando o espectador parece ver o início de um romance. “Parece” porque, embora fique evidente que ela é mais que uma amiga, não há cenas de beijo ou outras demonstrações físicas de afeto – quando muito, cenas sutilmente metafóricas. Tais escolhas acabam por enfraquecer a relação central do filme que, a despeito do esforço dos atores, acaba envolvendo o espectador somente em momentos mais pontuais.

O desenrolar da trama, no entanto, deixa isso tudo em segundo plano para, na verdade, tratar de outras questões sensíveis, ou mesmo, de outro tabu. Sagell parece esconder algo de Jo. Ela não bebe vinhos alemães, não anda em Fuscas, nunca voltou à Alemanha e nem mesmo fala o alemão, idioma que diz ter perdido por ter saído muito jovem do país. Em certo momento, Jo descobre o motivo deste inusitado comportamento: no final dos anos 1930, Sagell e seu namorado judeu deixaram a Alemanha fugindo da repressão nazista e migraram para a Suíça, onde passaram a viver. Durante a guerra, ele foi à França visitar a mãe e nunca mais voltou. Desde então, Sagell procurou evitar tudo o que lhe lembrasse a Alemanha.

Se Jo diz que sua geração precisa esquecer o passado para seguir adiante, Sagell diz sentir a obrigação de sentir raiva pelas vítimas – culpa seus contemporâneos alemães pela desgraça do Holocausto. O clímax se dá com o almoço que os dois oferecem, ao fim do filme, para a mãe e o avô do DJ (o avô é interpretado por Bruno Ganz, de “A Queda”). No encontro, Sagell confronta seu passado e o avô revela detalhes de sua vida durante a guerra, o que termina por comprometer a ótima relação que ele tinha com o neto.

Filme também fica devendo em termos de história

O passado nazista no pós-guerra já foi abordado por diferentes filmes, caso do clássico de Michael Verhoven, “Uma cidade sem passado” (“Das Schreckliche Mädchen”, 1990), e do recente “Labirinto de Mentiras” (“Im Labyrinth des Schweigens”, 2014), dirigido por Giulio Ricciarelli. “Amnesia”, porém, fica bastante aquém destes dois títulos e de outros predecessores na temática. Embora a história se desenrole fora da Alemanha e aborde a dimensão familiar, o que faz com que ele se diferencie dos demais do gênero, o filme de Schroeder é bastante raso ao enfrentar a questão da memória alemã da violência nazista. Essa fragilidade fica evidenciada pela primeira vez quando Jo descobre o drama que Sagell viveu no Terceiro Reich. As memórias reprimidas e até mesmo substituídas pela personagem vêm à tona de forma esquemática, baseada em poucas frases de clichês e formatadas por uma narrativa que pacifica um trauma que desde o início do filme é apresentado como a grande força constitutiva de Sagell. Isso faz com que o trauma pareça menor ou menos propositado, enfraquecendo as escolhas da personagem e evitando as incômodas tensões que caracterizam a dinâmica do silenciamento que se processou na Alemanha no pós-guerra. O historiador Pierre Laborie usou o termo “zona cinzenta” para se referir aos comportamentos sociais compreendidos entre a resistência e a colaboração. Sagell vive, de certa forma, uma zona cinzenta. Mas esse lugar não é esmiuçado no filme.

Um segundo momento em que tal fragilidade fica exposta é o mencionado almoço oferecido à mãe e ao avô de Jo. Nesta cena, o filme chega a tangenciar a tal “zona cinzenta” de Laborie quando a mãe de Jo aponta que Sagell fala de um lugar muito confortável: o lugar de alguém que deixou a Alemanha em tempos de crise e que preferiu silenciar sobre o passado. Mas a cena não se desenvolve. E isso ocorre, em parte, porque tanto mãe quanto avô assumem um papel moralmente instrumental no filme. Ambos estão ali apenas para que Sagell tenha a sua catarse de memória e não como personagens autônomos e pluridimensionais dentro da trama. Além disso, a pobreza dos diálogos contribuiu para agravar o problema. Quanto mais queremos ver a complexidade dos personagens, menos o filme, infelizmente, entrega.

 

3 comentários em “Amnésia” – crítica

  1. Antonio Gomes Ferreira Filho // 30 de novembro de 2016 às 14:51 // Responder

    Será que sai em DVD?

    Curtido por 1 pessoa

    • Oi, Antonio. Talvez. Mas o mercado de DVD anda meio frio. De qualquer forma, o filme deve ser disponibilizado no Netflix, iTunes ou Net Now. Vamos torcer!

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      • Antonio Ferreira // 30 de novembro de 2016 às 22:03 //

        Verdade, até eu diminui as aquisições, se bem que parei por ter muita coisa e não compro mais blockbusters, e bons filmes estão saindo com tiragens limitadas, e estou dando preferência aos bluray e me desfazendo de muita coisa que comprei por impulso.

        Curtido por 1 pessoa

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